Por que pessoas não entendem o que é relevante para a empresa?

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Por que pessoas não entendem o que é relevante para a empresa?

Um gerente que não presta atenção ao contexto social e político no qual a empresa está mergulhada está fadado a cometer erros e a fracassar.

Nos últimos tempos, tenho sido chamado a explicar a diretores o que está acontecendo com seus gestores que não entendem o que eles falam e, por consequência, propõem soluções estapafúrdias para os problemas da companhia.

Essa é uma questão conhecida. Afinal, há algum tempo os presidentes das empresas reclamam que seus executivos não estão alinhados com eles e não entendem o negócio da empresa.

Esse problema deriva da formação, da falta de conhecimento e de personalidade dos executivos.

Quanto à formação e falta de conhecimento, se os profissionais são formados em universidades e faculdades e não sabem o que deveriam, o que eles ficaram fazendo lá? Bem, além de tomar cerveja, jogar truco, pôquer, videogame e viajar – e outras coisas desnecessárias de serem mencionadas – a maioria foi adestrada. Os que saem ilesos desse processo são verdadeiros heróis com muita força, em geral autodidatas e salvos por poucos professores lúcidos desse contexto.

Adestrar, significa que a pessoa está apta a responder de um determinado modo quando ouvir um alarme que é disparado por palavras específicas.

Por exemplo, as pessoas se sentem bem ao ouvir palavras como: sustentabilidade, democracia, meio-ambiente, diversidade, igualdade, cachorro, gato, revolucionário, Obama, Clinton entre outras coisas.

E se sentem mal ao ouvir algo como: capitalismo, ódio, machismo, facismo, dogma, aquecimento global, mudança climática, conservador, Trump, Bolsonaro etc.

O resultado disso é que as pessoas perderam a capacidade de examinar com profundidade qualquer tema relevante para suas vidas, o país e as empresas. Elas se baseiam em sua emoções a respeito dos assuntos e, em muitos casos, ficam emocionadas demais.

Examinar com profundidade significa, para um determinado tema, conseguir categorizá-lo com o nível de relevância necessário, conhecer seu histórico, o momento atual e refletir sobre seu futuro. Evidentemente que, nos temas referentes à empresa, precisarão determinar quais planos e ações conduzirão para o futuro desejado.

Entretanto, o contexto atual mostra que as pessoas falham ao estabelecer o nível de relevância dos assuntos e, por conseguinte, dão atenção a coisas que são insignificantes e desdenham daquelas que são fundamentais.

O comportamento dentro das empresas tem um forte componente derivado justamente do adestramento que as pessoas sofreram. Daí a importância dos diretores dar a devida importância ao contexto social do qual provêem seus funcionários.

É claro que um líder empresarial não tem o tempo que um filósofo dispõe para examinar um problema indefinidamente. Mas, é possível verificar alguns dados que nos informam sobre o contexto social em que está.

Por exemplo, hoje as pessoas são adestradas a se sensibilizarem mais com a morte de um cachorro do que de uma criança.

Vamos ao exemplo real:

Podemos observar pelo google trends a reação das pessoas na internet com a morte de um cachorro em uma loja do Carrefour em novembro de 2018:

Agora, vamos ver e comparar com o interesse sobre a morte do menino Rhuan Maycon, uma criança de 11 anos que sofreu os seguintes horrores: teve seu pênis amputado há um ano e no dia 31/5/2019 foi morto e esquartejado por um casal de lésbicas – uma delas sua própria mãe. Trata-se da linha vermelha no gráfico abaixo:

Uma sociedade que se preocupa mais com a morte de um cachorro do que com um menino que foi torturado, morto e esquartejado por sua mãe lésbica e sua companheira é uma sociedade condenada se não for despertada.

É dela que retiramos nossos funcionários e futuros líderes da organização. Se essas pessoas não sabem refletir sozinhas a respeito do que é relevante em termos dos fatos do cotidiano e a que se manifestar, imagine com relação aos temas empresarias.

Mas, porque elas não se manifestaram?

Vamos ver se descobrimos como cada notícia foi propagada pela imprensa:

Abaixo está o link da pesquisa de menções na imprensa do cachorro morto no Carrefour no dia 30 de novembro de 2018:

https://news.google.com/search?q=Cachorro%20carrefour&hl=pt-BR&gl=BR&ceid=BR%3Apt-419

Contei 77 notícias sobre o tema.

E este é o resultado da pesquisa de menções na imprensa sobre o menino Rhuan:

https://news.google.com/search?q=Rhuan&hl=pt-BR&gl=BR&ceid=BR%3Apt-419

Contei 10 notícias sobre o tema.

Portanto, as pessoas se manifestam menos porque foram menos informadas a respeito. Principalmente pelos maiores veículos de imprensa.

Observe que, no dia em que inicio a escrever este artigo, 8/6/2019, o google news mostra como notícia de destaque na Exame o ataque sofrido por um casal de lésbicas em Londres:

Ora, a Exame é apenas um exemplo de fonte de notícia para executivos e gestores.

Mas, quando você procura pela trágica morte de Rhuan nas páginas da Exame a resposta é a seguinte:

 

Ou seja, não há menção ao caso.

Portanto, para Exame, é mais importante a violência sofrida por um casal de lésbicas em Londres do que a morte de uma criança brasileira perpetrada por um casal de lésbicas.

É deste modo que que o adestramento é feito: pela repetição de temas que se desejam enfatizar e pela ocultação daquilo que se deseja remover da atenção e da emoção das pessoas.

Isso faz com que elas se interessem pelos assuntos que estão sendo falados em seu grupo e pareçam bem perante ele. Ou seja, elas se manifestam da maneira esperada pelo grupo e evitam aqueles temas que também são evitados pelo grupo – sempre pelo mesmo motivo: parecer bem. Chegamos, portanto, ao problema de personalidade enfraquecida.

Imagine agora que essas pessoas ingressam na empresa. O que acontece? Acontece uma preocupação exagerada em ficar bem com pares e ignorar temas que são fundamentais para a companhia e que, por vezes, estão diretamente sob sua responsabilidade.

Do mesmo modo que é inimaginável ver pessoas que se sensibilizam mais com a morte de um cachorro do que de uma criança, também é difícil crer que profissionais desconheçam a relevância do fluxo de caixa, das vendas, do atendimento ao cliente, dos prazos de entrega de cada tarefa, entre outros temas empresariais relevantes.

Embora, saibam de cor seus direitos e quando sairão de férias – aliás, o planejamento das férias de certos profissionais é um primor que não se revela nos planos de ação que propõem para a empresa – ou seja, simplesmente ignoram e não se sensibilizam para o aprendizado daquilo que de fato pode gerar resultados.

Você pode ser presidente, diretor ou gerente em uma empresa, mas se você não olhar para os fatos que ocorrem na sociedade, como ela se comporta diante deles, qual a origem desse comportamento e quais as consequências dele ser reproduzido na empresa, irá falhar na implementação de sua estratégia. Pois, os comportamentos das pessoas formam a cultura da empresa e é ela que engole os planos estratégicos quando eles lhe são contrários.

Quanto maior sua capacidade de fazer essa associação, maior a capacidade de planejar e interferir em ações que estão acontecendo neste momento em universidades, faculdades e na mídia e que estão minando os recursos que você mais precisa para que a empresa seja bem-sucedida: os recursos humanos.

Por fim, os executivos são a voz ausente nos temas do quotidiano. Entretanto, não há compliance, missão, valor ou propósito empresarial que se sobreponha à necessidade moral de pessoas tão importantes como diretores, gerentes e presidentes não conhecerem, se aprofundarem e se manifestarem sobre temas que afetam a todos. Portanto, no momento atual, outras crianças que podem estar em risco ou vivenciando sofrimento semelhante ao de Rhuan, agradeceriam muito sua manifestação. Esta é uma ação correta de pessoas de bem e não apenas de sucesso financeiro.

Vamos em frente!

(1) Notícia sobre a morte de Rhuan Maycon: https://glo.bo/2IuUotK

(2) Notícia sobre a morte do cachorro no Carrefour: https://glo.bo/2IDTJGt

 

“Onde quer que haja adoração a animais, ali haverá sacrifício humano”.

G. K. Chesterton

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