Não tente responder perguntas impossíveis

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Não tente responder perguntas impossíveis

No meu post sobre a inexistência do racismo estrutural (1) há algo importante que gostaria de destacar e que pode acontecer com um país e com um indivíduo: a tentativa de responder perguntas que se referem a um problema inexistente e que, portanto, são impossíveis de serem respondidas.

Como não há racismo estrutural no Brasil, quando os líderes empresariais tentam responder à pergunta: “Como resolver o racismo estrutural no país?” são levados a inúmeras ações e nenhuma delas é produtiva. Pelo simples motivo de que não há racismo estrutural no Brasil.

Na esfera pessoal ocorre o mesmo.

O abismo

A tentativa de responder a uma pergunta impossível gera uma espiral de ações que literalmente suga a pessoa para um abismo. A pessoa gira ao redor de um mesmo tema, mas o centro deste tema é vazio e, portanto, somente suga sua atenção e energia em um esforço improdutivo e infeliz de resolver um problema inexistente.

Na minha experiência de coach, já vi muitos executivos tentarem responder às seguintes perguntas impossíveis:

“O que eu tenho de fazer para deixar de ser incompetente?” – a pessoa era C-level reconhecida e admirada pelo mercado.

“O que eu tenho de fazer para parar de ser improdutivo?” – este gerente trabalhava 14h por dia e seu departamento entregava 110% da meta.

“O que eu tenho de fazer para deixar de ser um fracassado?” – este empresário tem uma empresa de 25 anos no mercado, reconhecida internacionalmente e uma família feliz.

“O que eu tenho de fazer para deixar de ser burro?” – este diretor tinha formação acadêmica em 4 áreas diferentes e era autodidata com conhecimento profundo em mais 8 áreas, conselheiro de pessoas e empresas.

“O que eu tenho de fazer para deixar de ser pobre?” – este executivo tinha um patrimônio de mais de R$ 10 milhões.

O resultado de tentarem resolver estes problemas inexistentes é que todos tinham um grau de infelicidade e insatisfação incompatíveis com sua vida real.

Em todos os casos, esta percepção distorcida da realidade tornava estes executivos centralizadores e incapazes de delegar.

Muitos deles trabalhavam até o limite de suas horas e forças físicas, com todas as consequências previsíveis: cansaço, esgotamento, doenças, problemas de relacionamento e uma sensação insaciável de que não estão fazendo o bastante.

Estruturar o problema é mais importante do que resolvê-lo

Mais importante do que tentar resolver um problema é saber estruturá-lo. Se, ao debruçar-se sobre uma questão você percebe que ela não existe, evidentemente não há nada a ser feito.

Entretanto, você precisa ter um senso brutal da realidade e para isto você precisa ter a capacidade de ver o problema sob diversos ângulos. Isto é, ter uma perspectiva rotatória.

Quando você pega um objeto qualquer nas mãos, por exemplo, um mouse. Você consegue ver sua cor e formato. Ao tocá-lo percebe sua textura. Se virá-lo de ponta cabeça observará a luz do LED que o faz identificar seu movimento. Se abrir a tampa em sua base, verá as pilhas e o soquete onde ficam. Enfim, você somente perceberá tudo isso se rotacionar o mouse. Além disso, terá de abri-lo, se quiser conhecer com mais detalhes este simples objeto.

Portanto, antes de tentar resolver um problema, precisará observá-lo, fazer comparações, descrever elementos mensuráveis e características qualitativas.

Foco na verdade

O que percebo é que os executivos se concentram nos números a respeito de si mesmos, fazem comparações inapropriadas e ignoram aquilo que não pode ser medido e que, na maioria das vezes, é a essência do problema. Para piorar, se recusam a observar as evidências em contrário e que provam a inexistência da questão que os perturbam.

É esta estruturação do problema que permitirá você refletir sobre suas perguntas e desafiá-las antes de tentar respondê-las. Por exemplo:

Se você imagina que é incompetente, liste os momentos em que esta incompetência se revelou. Compare com os momentos em que você entregou tudo aquilo que precisava – lembre-se, ninguém é perfeito e quem lhe parece como tal, está escondendo algo. Reflita sobre quem mais seria capaz de fazer o que você faz considerando o seu histórico de vida e dificuldades que teve de enfrentar para chegar aonde chegou?  Quantas pessoas o admiram? Quantas o consideram incompetente, além de você mesmo? Quem são essas pessoas? Afinal, você pode ser criticado por 100 pangarés, mas quão qualificados estão esses indivíduos para avaliá-lo? E assim por diante.

Somos diferentes

A maior dificuldade de todas é perceber que você é diferente.

A tendência em nossa sociedade de acreditar que somos iguais e que os problemas em comuns nos fazem convergir para um mesmo comportamento e visão de mundo é falsa.

Ao levar em conta essas diferenças, você deve ser capaz de se desenvolver ao máximo em acordo com seus dons, vocações e propósitos elevados. Mas, isto é como numa curva assíntota, na qual quanto mais o tempo passa, mais próximo você fica de ser quem deseja, mas jamais haverá uma aproximação satisfatória para desejos infinitos e irreais.

Portanto, acostume-se com suas diferenças e lute para ter uma visão realista a seu respeito. A partir dela, aprimore-se técnica e moralmente com perseverança inabalável.

O quanto antes, deixe de ser um problema para si mesmo, pois assim, você abrirá o campo para resolver problemas verdadeiros e contribuir para sua família, sua carreira, empresa e para a humanidade.

Vamos em frente!

(1) Meu artigo sobre a inexistência do racismo estrutural no Brasil é este aqui:

Racismo e o desconhecimento da história por parte dos executivos e empresários