Racismo e o desconhecimento da história por parte dos executivos e empresários

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Racismo e o desconhecimento da história por parte dos executivos e empresários

Um dos comportamentos mais destrutivos que observamos com frequência é a ação daqueles que querem resolver problemas antes de entendê-los. Como coach, me preocupa que, quando esta pessoa é um líder executivo e empresarial, os resultados são desastrosos para si, a empresa e o país.

Minha intenção aqui não é criticar a decisão dos executivos do Magazine Luiza, posteriormente da Bayer e de outras empresas, de fazerem programas somente para negros, mas apenas descrever os erros que estão envolvidos com estas decisões. Uma empresa alemã como a Bayer fazer isto não me surpreende porque a moralidade e a história alemã não são das mais reputáveis quando o assunto é racismo, mas uma empresa nascida no berço católico do Brasil tomar esta decisão é perturbador pelo desconhecimento de nossa história.

A pergunta errada pode levar a ações acéfalas

Para esta descrição, vou usar a própria resposta do herdeiro da família, Sr. Frederico Trajano, que a escreveu no Brazil Journal do dia 19/9/2020 para explicar sua decisão. (1)

Diz ele que o programa de Trainee do Magazine Luiza será realizado em 2020 somente para negros porque:

“O Magalu nasceu para incluir.” (…)

“Temos um quadro de mais de 40.000 funcionários. Desse total, mais da metade são negros ou pardos. Eles estão em nossas lojas físicas, CDs, escritórios, e fazem parte da nossa comunidade de desenvolvedores. São vendedores, estoquistas, montadores, assistentes. Todos absolutamente essenciais.”

Surpreendentemente a pergunta que ele faz em seguida é:

“Mas onde estão os líderes negros e negras (SIC) do magalu?”

Esta pergunta é a prova de que a alta gestão da empresa não está qualificada para lidar com o problema. Pois, se o estivesse, saberia que a pergunta a ser feita, dada a premissa, seria: “Onde estão os líderes negros e pardos do Magalu?”.

Uma observação inicial: na língua portuguesa, o gênero masculino é usado quando desejamos falar sobre a espécie humana ou a humanidade, portanto, não há necessidade de se escrever “líderes negros e negras”. Do mesmo modo ninguém fala sobre as baleias e “os baleios”, ou as hienas e “os hienos” pois designamos ambos nestas espécies ao usarmos o gênero feminino.

Se você deseja ser um líder é fundamental saber fazer perguntas. Ao errar nelas, suas respostas e consequentes ações o levarão a, em vez de solucionar o problema, causar um maior.

Uma das perguntas mais inapropriadas para se resolver um problema é: “como?”

Ela faz com que o indivíduo parta para uma série de ações acéfalas, sem o devido entendimento profundo do que deseja resolver.

Em vez de perguntar “Onde estão os líderes negros?” e partir para outra, consequente desta, que é “como tê-los na empresa?”, mais apropriado seria questionar: “o que devemos considerar para ter uma quantidade maior de negros e pardos na liderança da empresa? Especialmente na alta liderança?”.

Esta pergunta possibilita uma faixa de respostas mais abrangente e esclarecedora do que se tentarmos partir direto para a solução de um problema complexo e que não compreendemos.

Um líder executivo tem de conhecer os números reais

No texto, o autor afirma que “Atualmente, apenas 16% dos representantes da liderança da empresa são negros”.

Se ele soubesse que a população negra do Brasil representa aproximadamente 9% (2) do total, deveria celebrar este percentual, pois o Magazine Luiza já conseguiu colocar na liderança quase o dobro do percentual de negros encontrado na população.

Conheça a história antes de querer mudar algo

Outro ponto importante para se endereçar a questão é conhecer a história que nos trouxe até aqui.

Não vou me estender na história da civilização ocidental e da brasileira em particular. Mas, recomendo a todos estudarem como a cristianização do Império Romano extinguiu a escravidão em seus domínios e como ela, da maneira que a conhecemos no Brasil do passado, foi um fenômeno que se originou na África. Os negros se escravizavam mutuamente.

No século XVI, um negro poderia morrer de fome na África ou em lutas com outras tribos, ser escravizado e ir parar no mundo árabe islâmico onde seria castrado – evento que matava 70% deles – ir parar nos Estados Unidos, onde não lhe seria permitido expressar nenhum elemento de sua cultura original, ou vir para o Brasil.

Nosso país originou-se a partir de 700 anos da luta contra o elemento Mouro na península Ibérica, iniciada no século XII. Esta expansão, que começou pelo reino das Astúrias, teve momentos de fundamental importância para a civilização brasileira.

A principal foi a batalha de Ourique, 1139, na qual Afonso Henriques, futuro rei de Portugal, se vê encurralado por um exército mouro 10 vezes maior que o seu. Ele tem uma visão de Jesus Cristo que lhe promete a vitória e em troca lhe dá a missão de espalhar a fé católica pelo mundo.

Quando do fim da expulsão dos mouros da península, o espírito de conquista e de expansão da fé católica permanece nos portugueses e encontra nas grandes navegações o desejo de saciá-lo.

É por isso que ao fim de sua carta ao rei de Portugal, que Pero Vaz Caminha afirma sobre o que fazer com as terras que encontrara a esquadra de Pedro Ávares Cabral:

“Águas são muitas; infindas. (…) Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. (…) Quando mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.”

Portanto, o Brasil nasceu e existe para a expansão da fé católica. A introdução de escravos foi uma mancha terrível em nossa história, mas, soubemos contorná-la a partir da miscigenação de portugueses, índios e negros. A escravidão não teve como prosperar a partir de uma cultura católica que prega a liberdade a nós dada por Deus.

O resultado disso é que temos hoje cerca de 50% de nossa população mestiça. Eu inclusive, já que sou descendente de negros, portugueses e italianos. Não existe paralelo no mundo.

O Brasil tem tudo a ensinar sobre como acabar com o racismo

Lembremos que o fim da escravidão nos Estados Unidos foi em meio à uma guerra civil e em nosso território a escravidão terminou, graças à lei Áurea de 13 de maio de 1888, assinada pela Princesa Isabel, “A Redentora”, com uma santa missa de dimensões colossais.

 

Foto de 17 de maio de 1888 – Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura

 

Portanto, o Brasil não tem nada a aprender sobre racismo com outras nações e tem tudo a ensinar.

Sem profundidade na busca das causas, não se encontra a solução de nenhum problema

A mancha da escravidão no Brasil iniciou-se entre 1539 e 1542, e foi até 1888 quando a princesa Isabel declarou, ao ser alertada que a lei Áurea poderia custar-lhe a coroa: “Se mil reinos eu tivesse, mil reinos eu daria para acabar com a escravidão”.  Um povo católico não pode ser perpetuador da escravidão.

Nossa cultura empresarial de buscar explicações rápidas e lógicas, e soluções pragmáticas nos fazem aceitar uma explicação curta, fácil, normalmente oriunda de pseudointelectuais e que, se compreensível, provoca uma recusa à dedicação às causas mais complexas de uma questão.

Mas, se você deseja resolver um problema e não souber a verdade necessária para resolvê-lo, então nunca estará qualificado para lidar com ele e não deveria agir para resolvê-lo.

De lá para cá, por que o negro não assumiu postos de maiores destaques?

Bem, isso é uma falácia enorme:

O ponto mais alto da sociedade

Nosso maior escritor, Machado de Assis, é negro. Na verdade, quase toda a nossa literatura é feita por negros.

Achar que ter um cargo de liderança em uma empresa é uma posição superior na sociedade é uma ignorância pois “nada acontece na política de um país que não esteja antes em sua literatura”. Portanto, mais importante do que ser um gerente, diretor, CEO, é você ser um grande escritor.

E se tivermos a curiosidade de ver a história real do negro no Brasil, veremos sua presença em inúmeras áreas. Em São Paulo, por exemplo, a Avenida Rebouças é em homenagem aos Engenheiros André e Antônio Pinto Rebouças, que, no período imperial, solucionaram o problema de abastecimento de água do Rio de Janeiro, construíram estradas de ferro e inventaram um torpedo usado na guerra do Paraguai, entre outras obras.

Os negros e as empresas

Mas, voltando à questão de não os encontrar tanto assim em cargos de liderança nas companhias.

Logo após a abolição da escravatura, se o negro quisesse ter emprego mais digno nas empresas, seria preciso primeiro que elas existissem.

Quando começou o processo de industrialização no Brasil?

Na década de 1930, quando o ditador Getúlio Vargas assinou os primeiros decretos que facilitavam a industrialização no país (3). Por este motivo, entre 1888 e 1930, a população negra aumentou sem um correspondente aumento do número de empregos. Entretanto, de lá para cá o nível de renda daqueles que são considerados negros só aumenta em consequência de haver mais oportunidades e sua maior penetração nas empresas, em cargos maiores e mais bem remunerados.

Sugestões

Portanto, se mantivermos o crescimento da economia e, principalmente a melhora educacional nas próximas décadas – iniciada com o excepcional trabalho do secretário de alfabetização, Sr. Carlos Nadalin, teremos mais pessoas, inclusive negras, formadas e capacitadas para assumirem postos cada vez mais relevantes na empresa.

Se os dirigentes do Magazine Luiza, ou de qualquer outra empresa, desejam realmente que haja mais negros e pardos em suas lideranças, recomendo que ajudem o trabalho do Sr. Carlos Nadalin a ser fomentado com maior velocidade em todo o Brasil.

Para a formação dos adultos,  sugiro que patrocinem e incentivem aos jovens negros a ingressarem no curso online de filosofia do Professor Olavo de Carvalho (4). Pois tenho observado na prática que, seus ensinamentos, de fato aumentam a inteligência das pessoas e consequentemente daqueles que desejam se capacitar a resolver problemas em suas vidas, carreiras, nas empresas e no país.

Uma pessoa alfabetizada de verdade, que seja incentivada e abrace a leitura constante e bem orientada será capaz de aprender qualquer coisa, inclusive a ser um líder um executivo empresarial.

E para ser contratado como tal, precisará de empresas sadias e que saibam humildemente, por exemplo, vender panelas e eletrodomésticos.

Não escrevo isso para depreciar a empresa ou  seus executivos, muito pelo contrário. Tente você, leitor, imaginar tudo que é necessário para que uma panela chegue ao seu lar, da mineração à logística, e verá que somente executivos muito bem qualificados serão capazes de fazê-lo.

Você não está qualificado para mudar o mundo

Nenhuma pessoa normal acorda de manhã pensando em resolver a fome do mundo, mas muitas precisam de uma panela nova, um ferro, um computador, uma máquina de lavar roupas, como foi a origem dos propósitos do Magazine Luiza.

Continuem a pensar nas necessidades de seus consumidores e como atendê-las e parem de seguir intelectuais que dizem que é possível a vocês resolverem problemas sociais ou “do planeta”.

Nem vocês, nem ninguém pode.

Entretanto, vocês podem fazer algo muito positivo para o mundo: parar de querer mudá-lo. Vocês não estão qualificados para isso pelo simples motivo óbvio que ninguém está.

Mas, um esforço humilde e verdadeiro de conhecer a história e entender o mundo os fará encontrar as ações que tanto procuram para que ele seja um local melhor para se viver.

Vamos em frente!

P.S. Para que uma idéia seja fomentada é preciso que alguém fale, escreva ou a divulgue de algum modo. Procure por algum grupo de pessoas que fomente o racismo no Brasil por estes meios e verá que ele não existe. Nenhuma idéia se propaga de maneira mágica.

Mas, existe o racismo circunstancial, ou seja, indivíduos que, por atos e palavras, excluem ou humilham pessoas por sua cor de pele. E para este racismo já existe a lei – embora ela não esteja sendo cumprida no caso desta decisão do Magalu.

  1. https://braziljournal.com/por-que-criamos-um-programa-de-lideranca-so-para-negros
  2. Dados da Fundação Palmares:http://www.palmares.gov.br/
  3. https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/116700/decreto-22636-33
  4. seminariodefilosofia.org