Falar de sacrifício não é meu assunto preferido e nem o seu, imagino, mas, é necessário, principalmente pelo futuro que se aproxima no mundo.
No dia 24 de fevereiro de 2022, os noivos Yaryna Arieva e Sviatoslav Fursin, ambos com 24 anos, se casaram na Ucrânia em meio aos primeiros ataques russos ao país. Originalmente, a data seria 6 de maio, mas resolveram antecipar devido à guerra.
Fonte: https://twitter.com/mrwtffacts
No dia seguinte ao casamento, estavam com rifles em punho, prontos para a guerra. Sacrificaram sua lua de mel e Deus sabe se o farão com suas vidas para defender seu país.
Esta história e o início da quaresma nos faz recordar o papel do sacrifício em nossas carreiras e vidas.
Fonte: https://twitter.com/mrwtffacts
POR QUE O SACRIFÍCIO?
Nós gostamos de filmes de ação porque há neles um forte componente de dúvida a respeito da sorte dos protagonistas.
Eles serão mortos pelos inimigos?
Conseguirão enfrentar os desafios?
Serão capazes de vencer suas deficiências e medos diante do perigo, da dor ou mesmo da morte certa?
Um filme de ação sem essa característica seria desinteressante.
Entretanto, quando o assunto é nossa vida real, nossa preferência é evidentemente pela ausência de dificuldades, dor e, é claro, nem falemos sobre a morte – que é certa para todos.
Ok, sejamos francos, não queremos a ausência completa disso, na verdade, para termos o que falar sobre nossas queixas, queremos um pouco de dificuldade, uma dor leve ou moderada e de pouca duração e que possamos empacotar tudo isso em uma história verossímil de extremo esforço pessoal.
Mas, brincadeiras à parte, o fato é que, sem essas dores e sofrimentos reais, não amadurecemos.
Certa vez observei um executivo que teve uma carreira muito correta e de muito esforço pessoal nos estudos e dedicação ao trabalho. Entretanto, não havia passado por perdas significativas em sua vida até os 40 anos. Em meio a uma viagem ao exterior, seu pai faleceu no Brasil e ele simplesmente desabou.
Abandonou a carreira e foi encontrar uma profissão onde pudesse estar mais próximo da família.
Não é que ele nunca tivesse passado por dificuldades, mas nunca havia parado para pensar que poderia perder as pessoas que amava.
A COMPLEXIDADE DA VIDA AUMENTA COM OS ANOS
O problema de não querer se sacrificar é que a vida se torna cada vez mais complexa com o passar dos anos. Se não tiver musculatura em suas diversas áreas, você estará fraco para enfrentar as dificuldades e o declínio natural que a vida apresentará.
Quando você é novo, viver se parece com o andar de uma bicicleta. Existe alguns riscos, é claro, mas você não precisa sequer de um painel para lhe informar o que ocorre com o veículo.
Com o passar do tempo, sua vida passa a ser um automóvel.
Você já atinge velocidades altas e os riscos para si e para outras pessoas é bem maior. Sem um painel para lhe dizer se há combustível suficiente, se a temperatura do motor está normal e sem retrovisores para lhe informar sobre os veículos ao redor, a condução se torna altamente arriscada.
Mas, ao passar dos 40 anos, a vida é como um boeing. Você está em altíssima velocidade, a quilômetros do chão e há um painel com centenas de informação à sua frente.
Imagine o que ocorreria se alguém tentasse pilotar um avião com seus conhecimentos sobre como dirigir um automóvel e sua intuição. Ou seja, se ele prestasse atenção somente ao velocímetro, ao combustível e, no máximo, para o altímetro, ignorando todos os outros indicadores no painel, mesmo que alguns deles estivessem com um sinal sonoro intermitente e com o marcador em vermelho.
Bem, é mais ou menos isso que as pessoas fazem em suas vidas: querem viver aos 40 e 50 anos, com suas habilidades, interesses e conhecimentos de 20.
Cuidam do trabalho, do corpo, das viagens, mas se esquecem do espírito, da alma e da eternidade.
Na verdade, tudo isso já é um problema quando somos jovens, mas é com o avanço da idade que essas e outras questões profundas cobram mais atenção e sacrifícios.
Não me entenda mal, não quero desanimar ninguém a envelhecer, mas apenas alertar que a perda dos pais, uma doença severa em nós ou em quem amamos, o desemprego ou a falência em uma idade mais avançada são problemas que o tempo nos indica para estarmos atentos e preparados.
E olha que tudo isso é uma sorte, pois há muitos que enfrentam essas questões muito jovens – e que, por isso mesmo, amadurecem antes e, por vezes, sem ninguém que os auxilie.
MANTENHA AS BOAS MEMÓRIAS NA LEMBRANÇA
Nunca veja seus anos ruins como “a vida verdadeira”, nem seus anos bons como “sonhos”. Existe uma articulação fundamental entre eles e que você deve aprender.
Não saberia dizer melhor do que as palavras de Louis Lavelle (1):
“Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significação, que nós queremos o destino mesmo que nos coube, como se nós próprios o tivéssemos escolhido. Depois o universo volta a fechar-se: tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando por um caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo aos nossos passos. A sabedoria consiste em conservar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver, em fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.”
Portanto, seu espírito é quem deve estar sempre bem, mesmo nas maiores adversidades.
COMECE COM ANILHAS LEVES
Lembro-me de já ter visto pessoas em academia se machucarem por tentar levantar pesos muito maiores que sua capacidade. Elas não queriam fazer progressos, mas saltar etapas.
Do mesmo modo vejo muitos jovens quererem ser diretores sem ter o menor treino para a liderança, domínio emocional e conhecimento para isso.
E ninguém começa o treino para a vida profissional sendo lançado em cargos de liderança. Você começa por baixo.
Paras as outras áreas da vida é o conceito permanece, ou seja, do mesmo modo que você começa um treino com anilhas menores até chegar nas de 40 Kg, a quaresma é o exemplo de um tempo para você treinar por determinação própria o auto sacrifício.
Como escrevi logo no início, não é um tema que gostamos muito de nos atentar, mas será esta força, desenvolvida ao longo da vida, que o fará ter musculatura psíquica e espiritual para levantar pesos cada vez maiores.
Não a subestime pois você precisará dela.
Conte comigo para ajudar a desenvolvê-la.
Vamos em frente!
Silvio Celestino
Sócio-diretor da Alliance Coaching


