ÁUDIO: O EXECUTIVO
🎯 O CULPADO É SEMPRE O LÍDER?
Em uma breve entrevista concedida a um jornal de grande circulação, o técnico Carlo Ancelotti afirmou que “o treinador é a parte mais frágil do futebol: quando o time vence, o mérito é dos jogadores; quando perde, ele é o único culpado.”
Não creio que apenas ele enxergue o esporte dessa maneira. A frase, embora se refira ao futebol, descreve uma realidade presente em praticamente todas as organizações humanas. Ao mesmo tempo, abre espaço para uma reflexão incômoda: quando buscamos um único culpado por um fracasso, estamos realmente interessados em compreender suas causas ou apenas procurando alguém para responsabilizar?
Imagine um jogador — ou mesmo um grupo deles — que não concorde com o treinador. Basta que atue abaixo de sua capacidade ou cometa um erro decisivo para que o resultado da partida seja comprometido e, pouco depois, o técnico seja demitido.
É evidente que um treinador incompetente tende a formar uma equipe igualmente deficiente. No entanto, atribuir exclusivamente a ele a responsabilidade por uma derrota é ignorar o contexto e a participação de todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para aquele resultado.
✈️ O QUE A AVIAÇÃO ENSINA SOBRE RESPONSABILIDADE
Os especialistas responsáveis por investigar acidentes aeronáuticos analisam, com extrema precisão, cada segundo que antecede uma tragédia. Na imensa maioria dos casos, concluem que o desastre decorre da combinação de diversos fatores, e não de uma única falha isolada.
Raramente um avião cai porque apenas uma pessoa errou.
Quando trazemos essa lógica para o ambiente empresarial, encontramos situações bastante semelhantes.
Diante de um acidente ou resultado negativo, vejo o quanto se busca somente culpar os processos, os executores, mas se esquecem de verificar as ações pregressas do executivo – e das pressões que sofreu para o resultado a qualquer custo, das exigências de quotas absurdas e das perspectivas ESGs irrealizáveis.
Um C-level atualmente é como o comandante de um navio preso a âncoras jurídicas de todas os lados, com peso excessivo do julgamento de moralistas perversos, mas que os investidores exigem que navegue a toda velocidade em meio a uma tormenta.
Nesta semana, um executivo de uma grande indústria comentou comigo a enorme dificuldade que seus gerentes industriais enfrentam para oferecer um feedback de desempenho a um operário.
Hoje, cada palavra precisa ser cuidadosamente escolhida para que não seja interpretada como assédio moral. Como consequência, muitos gestores preferem o silêncio ao risco de uma acusação.
⚠️ QUANDO O FEEDBACK SE TORNA UM RISCO
Esse ambiente é resultado de diversos fatores. Em determinados contextos, a atuação de sindicatos, a crescente judicialização das relações de trabalho, interpretações cada vez mais amplas sobre assédio moral e a própria insegurança jurídica fazem com que muitos gestores atuem com cautela excessiva.
Ao mesmo tempo, alguns profissionais aprendem a entregar apenas o mínimo necessário para preservar o emprego. Outros sabem conduzir uma conversa de feedback de modo a desestabilizar emocionalmente gestores menos experientes ou menos preparados. Diante desse cenário, muitos líderes concluem que a melhor alternativa é simplesmente evitar conversas difíceis.
Os gestores em início de carreira enfrentam um desafio adicional. Frequentemente precisam avaliar pessoas que, até pouco tempo antes, eram seus colegas de equipe — e, muitas vezes, seus amigos. A dificuldade técnica do feedback acaba potencializada pelo relacionamento pessoal construído ao longo dos anos.
🏆 A LIÇÃO DE TELÊ SANTANA
Lembro-me de que Telê Santana era extremamente rigoroso com tudo o que oferecia aos seus jogadores. Alimentação, vestiários, uniformes e equipamentos de treinamento: nada podia ficar abaixo do padrão de excelência.
Sua lógica era admirável.
Quando um atleta descumpria uma orientação técnica, Telê podia demonstrar que todas as condições necessárias para um bom desempenho haviam sido oferecidas. Se, ainda assim, o resultado fosse insatisfatório, a responsabilidade passava a ser do próprio jogador.
Essa história suscita uma pergunta importante.
Se uma empresa oferece ao funcionário todos os recursos necessários para desempenhar bem sua função e, ainda assim, ele falha, será que ela consegue lhe oferecer um feedback claro, honesto e objetivo?
💬 TODOS QUEREM FEEDBACK?
Parece-me paradoxal vivermos uma época em que se afirma, com frequência, que as novas gerações desejam receber feedback constante, enquanto, ao mesmo tempo, se torna cada vez mais difícil oferecê-lo com honestidade.
Tenho a impressão de que muitos não desejam propriamente feedback. Desejam elogio, ainda que sua entrega esteja muito aquém do esperado.
Que tipo de ambiente organizacional construímos quando isso acontece?
Um ambiente em que a performance é mediana, mas todos permanecem felizes.
🌎 SÓ FALTA COMBINAR COM O MUNDO
“Só falta combinar com o beque”
Ou, neste caso, com os operários americanos, chineses, coreanos e tantos outros concorrentes espalhados pelo mundo.
Eles também decidirão produzir menos? Também considerarão moralmente aceitável entregar apenas o mínimo?
Nossos concorrentes certamente ficariam satisfeitos se essa fosse nossa escolha.
Mas será esse o futuro que desejamos construir?
🥅 O PÊNALTI DE VERDADE
Imagine que você convide seu filho de cinco anos para jogar futebol e lhe peça que cobre um pênalti contra você. Ele chuta fraco, a bola vem lentamente e, deliberadamente, você cai em câmera lenta para permitir o gol. Naturalmente, ele comemorará. Afinal, ainda é uma criança.
Um adulto, porém, deseja bater um pênalti de verdade, em um jogo de verdade, diante de um goleiro especialista em defender pênaltis. Porque sabe que, se marcar o gol, sua conquista será legítima.
Talvez essa seja uma das escolhas fundamentais da maturidade.
Você prefere viver confortavelmente na ilusão ou enfrentar a verdade?
📈 EXECUTIVOS DE CLASSE INTERNACIONAL
Você compara seu desempenho com o dos melhores profissionais do mundo?
Porque, a menos que decidamos fechar nosso país à concorrência internacional, não temos o direito de ser inferiores aos nossos competidores.
Como acontece na Copa do Mundo, chega um momento em que termina a fase de grupos e começa o mata-mata. A partir daí, apenas um permanece.
É difícil formar executivos de classe internacional em uma cultura que recompensa a mediocridade ou que transforma qualquer cobrança por excelência em uma ofensa pessoal.
🇧🇷 A EXCELÊNCIA COMO PROJETO DE NAÇÃO
O que deveríamos esperar é que cada profissional, independentemente da atividade que exerça, enxergasse seu trabalho como uma oportunidade digna de expressar o melhor de si mesmo.
O mesmo desejo de sermos campeões mundiais de futebol a cada copa poderia inspirar todas as áreas da vida nacional.
Que país extraordinário construiríamos se buscássemos excelência não apenas nos gramados, mas também nas fábricas, nas escolas, nos hospitais, nas empresas, no serviço público e na política.
Por que não aspirarmos a garis excelentes? Operários excelentes? Professores excelentes? Médicos excelentes? Empresários excelentes? Políticos excelentes?
Talvez Carlo Ancelotti tenha razão. O técnico seja mesmo a parte mais frágil do futebol. Mas uma nação que deseja voltar a ser campeã a cada ciclo — nos gramados, nas empresas, na ciência, na educação e em todas as áreas da vida — não pode limitar-se a procurar culpados.
Precisa formar pessoas que assumam responsabilidades.
Mesmo que este seja um trabalho para 12 Hércules, vamos fazê-lo!
Conte comigo para isso e… vai Brasil!

Silvio Celestino – Diretor da Alliance Coaching
Autor do livro: O LÍDER TRANSFORMADOR, como transformar pessoas em líderes
silvio.celestino@alliancecoaching.com.br
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Um grande abraço e vamos em frente!
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