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Integre as adversidades em seu plano de carreira e de vida

Um plano de vida deve preceder o de carreira. Entretanto, em ambos os desenhos, é comum observarmos a falta de precaução para adversidades. Talvez, o mais apropriado é que, por conta da imprevisibilidade e das infinitas possibilidades do que pode dar errado em nossas vidas e carreiras, pensar nas adversidades é, por vezes, um exercício incompleto e imperfeito. Mas é importante estarmos conscientes de que elas acontecem. E, quando vêm, dependendo de sua magnitude, são motivo de frustração, desilusão, tristeza e, nos casos mais profundos, de desespero.

A causa disso é que evitamos reconhecer que as adversidades fazem parte da vida. Uma vida sem elas seria irreal.

O começo da precaução está na consciência de que adversidades existem. É claro que, para aquelas que podemos prever, devemos criar as condições de contorno e nos prepararmos para sua eventualidade.

Entretanto, no caso daqueles acidentes imprevisíveis, o máximo que podemos fazer é aceitá-los e lidar com eles à medida que ocorrem, se agravam ou amenizam. É na aceitação que está o contato, por vezes muito duro, com a realidade. Mas, se não formos capazes de encarar a realidade, ela pode se impor a nós de maneira implacável. É o caso da pessoa que morre de uma doença que nunca acreditou ter, apesar de todas as evidências. Ou do indivíduo que perde o emprego porque imaginava poder crescer na carreira sem ler e manter-se atualizado, mesmo tendo sido alertado inúmeras vezes a respeito.

Quer seja um simples imprevisto, um grave problema, um acidente ou uma tragédia, você terá de lidar com isso. E lidar com a adversidade significa primeiro aceitá-la; segundo, transformar-se em acordo com essa adversidade, e, por último, adaptar o plano.

A principal motivação para isso é o fim de sua vida. Nele, você terá de olhar para trás e ter sido quem planejara. Portanto, é esse indivíduo do futuro, que é você mesmo, que deve servir de régua para sua adaptação e ações.

Por exemplo, Epiteto, que viveu entre os anos de 55 e 135, queria ser filósofo, mas nasceu escravo e, pior, de um dono cruel. Ainda assim, usou sua experiência de vida para tornar-se filósofo.

Viktor Frankl queria ser médico, mas, para não deixar seus pais, muito velhinhos, na Alemanha nazista, acabou no campo de concentração. Resultado: usou todos os horrores que vivenciou nesse campo como base para suas investigações médicas. A pergunta fundamental que orientou suas observações foi: “Por que algumas pessoas resistem bem à experiência do campo de concentração e saem de lá até fortalecidas, enquanto outras desabam, são totalmente destruídas?”. Dito de outro modo: “Se a experiência, por vezes cruel, trágica e desumana, é a mesma, por que as pessoas reagem de maneira diferente?”.

Ou seja, uma experiência oposta e extremamente desfavorável aos nossos desejos pode ser o caminho para realizá-lo de uma maneira extraordinária e memorável. Essencialmente, temos de manter nossa unidade com o plano, ou seja, com aquele que desejamos ser ao morrermos. Esse caminho, por vezes extremamente doloroso e difícil, somente será descortinado conforme aceitamos a adversidade, negociamos e usamos toda a nossa criatividade e habilidade para lidar com ela.

Portanto, não abra mão do grand finale de sua vida e de sua carreira profissional.

Para isso, empresto as palavras do filósofo Louis Lavelle sobre como ele descreve o fato de que a vida e os acontecimentos não são desenhados para ser favoráveis a você, mas, por vezes, são enigmas formidáveis que precisam ser solucionados para que você chegue ao que deseja para si.

“Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significação, que nós queremos o destino mesmo que nos coube, como se nós próprios o tivéssemos escolhido. Depois o universo volta a fechar-se: tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando por um caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo aos nossos passos. A sabedoria consiste em conservar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver, em fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.” (**)

Vamos em frente!

 

(**)Témoignage (“Testemunho”), apêndice do livro De l’Intimité spirituelle (Da intimidade espiritual), de Louis Lavelle, 1ª edição publicada pelas Edições Aubier, no ano de 1955.